• Diogo Dutra

Nosso "deep learning" na Startup Nation

Atualizado: Mar 31

As percepções de fundadores de startups de base tecnológica que imergiram uma semana em Israel por meio de um programa da Google para startups de visão computacional.


Eu acredito no poder que a tecnologia tem para impactar positivamente a vida das pessoas e fiz da minha carreira nos últimos 10 anos uma busca implacável para entender e reformular os caminhos que permitam realizar isso de forma mais sistemática e frequente.


Nesse caminho, iniciei três empresas com sócios incríveis que, além de compartilhar desse mesmo sonho, me provocam todos os dias (direta ou indiretamente) a me desenvolver, a ir além dos meus limites e ser digno de continuar perseguindo esse sonho.


Em nossa mais recente startup, a cromAI, que tem como objetivo gerar para produtores rurais diagnósticos precoces das plantas (pragas/doenças, deficiências nutricionais e maturação) por meio de tecnologias embarcadas com visão computacional, esse processo vem sendo muito intenso e com saltos enormes de aprendizados.


Com a cromAI, fomos selecionados para participar de um programa do Google Campus em Israel, que escolheu algumas startups de visão computacional do mundo inteiro para participar de um programa de "intercâmbio". Acabamos de voltar dessa experiência incrível e voltamos com aprendizados gigantescos, tanto pela observação e entendimento do ecossistema local de inovação, pela experiência com o Google, quanto pelo programa em si, cujo foco eram startups do mesmo nível de maturidade e com a mesma base tecnológica.


A ideia desse texto é trazer um compilado desses aprendizados com quem também compartilha do mesmo sonho de levar alta tecnologia para sociedade, mas também com quem está vivenciando esse mesmo processo empreendedor nesse exato momento.


Para quem quiser saber um pouco mais da nossa startup, a cromAI >> link


1. Israel - a Startup Nation


Antes de ir mesmo sonhar em visitar Israel, já havia ouvido muito falar de seu ecossistema único e de como seu contexto cultural e histórico ajudaram a moldar um mindset singular voltado à ciência, tecnologia e empreendedorismo.


Acho que não vale a pena trazer os mesmos pontos que o livro "Startup Nation" de Dan Senor e Saul Singer já trazem de maneira brilhante. Me prenderei portanto a pontos que experienciei e percepções dos agentes do ecossistema que encontrei nessa imersão.


a) Ecossistema, acessos e níveis maturidades:


A primeira coisa que se pode falar sobre o ecossistema é que, comparado ao ecossistema brasileiro, a quantidade de agentes que se envolvem no processo empreendedor é impressionante. É o maior número percapita do mundo quando se fala em incubadoras, aceleradoras, coworkings, maker spaces e outros "n" modelos diferentes de entidades que tem como propósito ser alguma espécie de "ponte", aumentar ou facilitar o acesso de startups a diferentes recursos que permitem seu crescimento mais acelerado.


Isso faz com que o apoio early stage esteja muito maduro, permitindo que o empreendedor tecnológico tenha apoio desde o primeiro dia através de programas equity free ou mesmo acesso a capital de risco muito facilmente.


Apesar de entender que sim, essa seria uma forma de medir a maturidade de um ecosssitema, o fato do capital de risco ser abundante (inclusive motivado em grande parte pelo investimento estatal) na minha opinião pode ter um efeito colateral ruim na formação do empreendedor de base tecnológica. Atualmente eu venho valorizando muito o modelo bootstraping como um modelo pedagógico e ao mesmo tempo mais eficiente de criamos produtos que tenham real market-fit. Na cromAI essa proposta está sendo essencial para validarmos dores de cliente, proposta de valor e variações do produto de maneira sólida com avanços consistentes e de forma muita rápida.


O engraçado é que quando falamos que estamos usando essa mentalidade desde o início da startup para um dos diretores de uma grande incubadora de AgTech aqui em Israel ele soltou: "Bootstraping?! Good luck with that!". Entendo isso como uma visão de um ecossistema já estável, mas também como a visão de uma outra cultura que já encontrou e definiu sua forma de concretizar inovação. Vejo que o Brasil está amadurecendo o seu e eu apostaria que uma relação de bootstraping para gente funcionaria muito bem em termos de cultura de startup.


Uma outra coisa interessante em Israel é que nos últimos anos, atraídos pelos talentos locais, muitas multinacionais levaram seus departamentos de P&D para o país. Porém, mesmo com toda a maturidade do ecossistema, estas ainda estão aprendendo como interagir com startups. Já existem muitas iniciativas e modelos de trabalhos de startups com grandes empresas que são equity free e que focam sua atuação em uma interação gradual, iniciando com programas de criação de PoC (proof of concepts), passando por configurações de pilotos até chegar a Services Agreements consistentes para ambas as partes.


Dois exemplos são o "The Bridge" e o "JVP Play" que são iniciativas razoavelmente recentes e que estão descobrindo como navegar nesse espaço de atuação. O Brasil vem criando algumas boas iniciativas nesse caminho através de alguns Hubs de Inovação no país. A cromAI está hoje no Pulse, iniciativa da Raízen para startups do Agro negócio, e que realiza exatamente esse papel. Eles tem sido essenciais na construção da nossa relação comercial e na formatação do nosso serviço enquanto crescemos em atuação e escala lá dentro.


Por fim, uma curiosidade do ecossistema Israelense é que hoje o seu desafio maior está na consolidação de mais casos de sucesso de Scale-ups, ou seja, de empresas de tecnologias com modelos de negócio muito escaláveis e que se mantenham em Israel. Um exemplo hoje é a startup Mobileye que foi adquirida ano passado pela Intel (U$15bi) e que tem mais de 750 funcionários em sua sede em Jerusalem. Essa startup vem puxando a visão da gigante de chips americana para o futuro dos carros autônomos.


b) Cultura Disciplinada e o Chutzpa:


Algo que é bastante salientado no livro “Startup Nation” é a relação da formação militar obrigatória Israelense com habilidades importantes de seus empreendedores de tecnologia, seu networking e o processo disciplinado e ágil de tomada de ação.


Em nossa imersão acabamos tendo até pouco contato com essa característica dos empreendedores Israelenses, porém esta era citada a todo momento por todos agentes do ecossistema. Inclusive uma das startups selecionadas pelo programa tinha como um de seus fundadores um israelense que tinha passado pela divisão tecnológica militar mais importante e mais difícil de entrar da IDF.


Algo mais fácil de observar durante a semana foi a agilidade para tomada de ação de toda a equipe do Google Campus que estava ali. Era impressionante a velocidade e a reação deles com qualquer necessidade que tínhamos, desde as mais básicas como indicações de lugares para comer, até as mais complexas como marcar uma reunião com o diretor de operações da incubadora de AgTech mais importante de Israel.


Acho importante citar essa característica pois sinto que é algo que nós brasileiros ainda precisamos aprender. Uma frase bem famosa do Kevin Duran (jogar NBA) diz que "Hard work beats talent when talent fails to work hard”. Ainda sinto que nossa cultura, ainda muito presa à grandes ideias e uma percepção de sucesso mágico perde energia durante o processo de execução quando algo dá errado. A energia da execução precisa ser mantida com disciplina e aprendizado constante para evoluir e gerar convergência para soluções que realmente gerem valor.


Além disso, uma característica muito interessante do Israelense é o chamado Chutzpah, que é traduzido como uma capacidade direta e objetiva de trazer sua opinião. Vivenciei isso algumas vezes durante essa imersão, mas confesso que como já conhecia, não senti nenhuma agressividade ou rispidez, acabei levando o melhor dele e aproveitando muito dos feedbacks mais diretos e genuínos. Em alguns momentos a postura chegou até ser um pouco caricata e demos algumas risadas disso juntos.


Em algumas das conversas que tivemos, diversas frase começavam com “I have to be honest with you…” e nós já sabíamos o que vinha na sequencia. Acredito que nós brasileiros podemos criar o nosso próprio jeito de fazer isso. Um ambiente onde existe confiança e as pessoas não se ofendem com esse feedback, se cria um espaço onde as startups podem florecer e serem muito mais assertivas de maneira muito mais rápido.


2. Google Campus - Google for Entrepreneurs


Existem 7 google campus no mundo (Berlim, Londres, Madri, São Paulo, Seul, Tel Aviv e Varsóvia) e o objetivo principal é criar e dar suporte a uma comunidade de empreendedores para que essa possa florecer e fortalecer seus ecossistemas locais. Os diversos programas do Google for Entrepreneurs tem essa mesma visão, que está enraizado na ideia de construção de ecossistemas e de seus ganhos diretos e indiretos a partir de um ecossistema mais maduro.


O programa foi incrível e todos os participantes saíram com a sensação que aprenderam em uma semana o que sequer aprenderíamos em 6 meses. Abaixo analisamos os pontos que mais contribuíram para isso:


a) Hosting - Experience: A forma como fomos recebidos e toda organização do time do Campus Tel Aviv foram impecáveis. A agenda foi preparada para atender as expectativas e a maturidade de todas startups que estavam ali. De forma surpreendente durante todo o período que passamos lá, a equipe do Campus se colocou a disposição para conseguir qualquer reunião que pedíssemos naquela semana. Nós nos sentimos muito bem recebidos.


b) Matching de Mentores: Pelo menos para a equipe do cromAI, absolutamente todos os mentores foram muitos bons. Em uma das mentorias (product management) nós inclusive pedimos uma segunda sessão, já que na primeira não conseguimos tratar tudo que precisávamos. Tivemos sessões com um especialista de Visão Computacional do Google e uma outra com um consultor especialista em UX que nos deu excelentes feedbacks e ideias para a nossa plataforma.


c) Insights from stories (entrepreneurs): Os empreendedores que foram falar de suas estórias trouxeram muitas inspirações, principalmente aqueles que estavam empreendendo em startups de Inteligência Artificial. Algumas empresas que mais nos impressionaram foram a Trax e a OrCam.


d) Oficinas TED / Problema Solving: A primeira oficina foi com uma empresa que faz as preparações oficiais dos palestrantes do TED. Saindo muito das lógicas tradicionais, o facilitador transformou completamente o conceito de pitch e trazendo propostas muito simples, voltou nossa atenção para a necessidade de transmitir mensagens memoráveis. A segunda oficina ensinou, usando um framework auto-dirigido por perguntas, um modelo para que qualquer grupo de pessoa conseguisse tratar problemas complexos (normalmente relacionado à pessoas). Esse framework é usado pelas equipes do Google de maneira recorrente.


e) Outros participantes: Tivemos a oportunidade de conviver durante 7 dias com empreendedores de países como Israel, Suiça, Irlanda, Austrália, Cazaquistão, Turquia, India e Espanha. Todos com uma capacidade técnica muito avançada. Trocar ideias sobre desafios tecnológicos e de mercado com pessoas que estão vivenciando o mesmo momento empresarial com tecnologias muito similares é muito frutífero. Ganhamos muitos contatos e ideias de desenvolvimento que iremos utilizar no curto e médio prazo.


3. cromAI - do Deep Learning à Plataforma:


A preparação do cromAI para a ida ao Campus Exchange Tel Aviv teve como foco o levantamento dos principais desafios estratégicos. Organizamos materiais gráficos e mockups para que pudéssemos ter feedbacks os mais específicos possíveis. Durante cada palestra, mentoria ou oficina nós conversávamos sobre as nossas anotações e como poderíamos aplicar aquilo no cromAI. Os maiores take aways que tivemos para a cromAI foram:


a) Nosso algoritimo de Visão Computacional: Pudemos estressar tudo que estamos fazendo em nossa abordagem de deep learning. Explicamos nosso modelo e todas as estratégias para localização de objetos pequenos, além das estratégias que usamos para o número pequeno de imagens de treinamento. Já tínhamos essa impressão, já que o nosso CEO/CTO (Guilherme Castro) está aplicando o que mais existe em termos de estado-da-arte, porém tanto com o Googler que conversamos como com as outras startups vimos que estamos no caminho certo e que em termos mundiais estamos no nível mais alto de sofisticação dessa tecnologia.


b) Arquitetura do Produto/Arquitetura do Time: Basicamente hoje nós estamos em uma transição muito importante da empresa. Estamos em um momento de consolidação da arquitetura do produto. Depois de alguns contratos onde a tecnologia foi desenvolvida e testada a partir de perspectivas diferentes (diferentes clientes), o maior desafio atual da cromAI (além do atendimento os clientes/projetos atuais) está na consolidação de sua arquitetura de produto final, que permitirá a escalabilidade da solução e que serve a todos seus clientes de uma impecável.


Dentro das conversas com base nos nossos mockups e frameworks as grandes conclusões se concentraram em: (i) um processo de Design que vai a campo entender de fato como o usuário final (agrônomo) trabalha hoje com os diagnósticos para que pudéssemos ao máximo manter a nossa solução aos seus hábitos de decisão; e (ii) na criação de um roadmap de produto que priorize as funcionalidades (viewpoints) que mais agreguem e provem valor para a cadeia de influenciadores.


c) Atendimento ao cliente: Depois das fases inicias focadas em fazer um bom comercial e desenvolver um excelente produto as startups fatalmente entram na fase de atendimento e customer success. Diferentemente do oferecimento de serviços, a satisfação dos clientes quando compram tecnologia está relacionado a entrega fundamental dos requisitos que foram desenhados e que estão sendo esperados pelo cliente. Gestão de bugs, melhorias e novas versões fazem parte das habilidade que a startup precisará desenvolver e ser muito boa.


Depois de muitas trocas e reflexões, os pontos de aprendizados que mais ficaram foram: (i) ter um alinhamento sobre uma única entrega/métrica, pois assim fica mais simples a gestão de expectativas, mesmo sabendo que teríamos diversas outras métricas que impactaríamos; (ii) fazer um processo de planejamento mais claro e negociar melhor as expectativas/entregas e prazos mantendo velocidade, mas ao mesmo tempo garantindo as entregas principais.


Foram 7 dias incríveis com aprendizados em vários níveis. Para os que acreditam no impacto positivo da tecnologia na sociedade e que estão buscando formas de realizar esse ideal de maneira sistemática e frequente, acredito que todos os pontos colocados aqui possam ser muito valiosos. A experiência para gente do cromAI com certeza foi e fica o nossos maiores agradecimentos tanto ao Campus Exchange, essencial para essa experiência, como a Nação Startup, inspiração de cultura e modelo de inovação. Obrigado!



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